Eu escondo os meus sentimentos do mundo para deixá-los expostos em um caderno velho sem capa. Lá eles repousam e envelhecem, sem pagar aluguel. Poderiam estar morando em um livro, ou em alguma carta sem destinatário. Mas são sentimentos pobres e humildes, e um caderno velho sem capa é suficientemente confortável para eles. E ficam assim, ao alcance de quem realmente precisa.Eu também escondo sentimentos alheios. Jogo todos, de forma desorganizada, em uma caixa de papelão. São sentimentos ricos, alguns. Mas isso é o que eu tenho a oferecer. Uma caixa de papelão. Ela não é nova, nem velha. Nem bonita, nem feia. É espaçosa. E isso basta. É como se fosse uma caixa de pronto-socorros, que vez ou outra cura as minhas feridas. Esparadrapos feitos de bilhetinhos amigos; gazes feitas de cartões de aniversário; band-aids feitos de cartas de amor. E assim eu não passo aperto. Os sentimentos
devem ser guardados, de qualquer forma. Em um caderno velho sem capa ou em uma caixa de papelão. Porque sentimentos apenas sentidos morrem com o tempo. Mas sentimentos sentidos e escritos vivem eternamente. Quem é mais sentimental que eu?




